Eu estava decidida a fazer parto normal. Marília e eu fizemos curso de pré-parto, eu tinha lido tudo a respeito, fiz pilates até a última semana, me sentia preparadíssima. Durante o pré-natal meu médico, o Dr. Laerte, que me acompanha há 20 anos, tentava manter minha mente aberta para a possibilidade de uma cesárea, com medo de eu teimar na hora H e acontecer algum problema. Finalmente chegamos a um acordo - eu tentaria o parto normal, mas se houvesse algum problema eu teria que concordar na hora em que ele decidisse intervir. Ok, disse eu, certa de que nada iria acontecer de errado.
Na semana em que a gravidez completaria 40 semanas, o dr. Laerte resolveu cismar com o ultrassom que eu levei. Disse que tinha certeza que o bebê estava maior e pediu pra eu fazer outro, num médico de confiança dele. No dia 21 de julho lá fomos nós. O médico não achou nada de muito diferente, o bebê estava na posição certa para o parto normal e havia começado a descer, mas ainda podia demorar. Fui tranquila pra casa, achar o que fazer. O quarto do neném estava pronto há muito tempo, as roupinhas lavadas, guardadas, a mala da maternidade preparada. Nos últimos dias eu estava me dedicando a arrumar o escritório, deixando a faxineira doida ao me ver em cima da escada com aquele barrigão, mudando caixas de lugar.
Lá pelas 17h00, comecei a me sentir muito cansada. Lembro que liguei pra minha irmã e falei, meio chorosa, que pela primeira vez eu estava cansada daquilo. Contei que tinha ido ao banheiro e sentido uma dorzinha chata. A tal dorzinha estava cada vez mais chata. Liguei para o dr. Laerte: "estou com uma dor esquisitíssima, será que tem alguma coisa errada?". Depois de descrever o que eu sentia, o diagnóstico: "o Samuel vai nascer essa noite"! Eu, super entendida de dores e contrações, dizia que não, a barriga não estava ficando dura como deveria se fosse o trabalho de parto. Enquanto isso, Marília tinha chegado do trabalho e começou a cronometrar as tais dores. Sim, eram regulares, e já estavam acontecendo a cada 6 minutos!
As dores estavam muito fortes. Dr. Laerte tinha instruído a só ir para o hospital quando estivessem de 3 em 3 minutos, mas como eu estava achando insuportável mandou a gente ir logo. Eram umas 21h00 quando chegamos ao hospital. Prevenidas, já tínhamos ido lá semanas antes, para ver por o melhor caminho, a entrada, os procedimentos, etc. Demos entrada na emergência, como tínhamos sido instruídas a fazer. Eu aos berros, Marília apavorada, a sala de espera cheia, vem um funcionário informar: "tem que entrar pela internação". Cacilda, pra isso tinha que dar a volta na quadra! Lá fomos nós. Chegando na entrada da internação, adivinhem! Ouvimos do funcionário "tem que entrar pela emergência"! Pobre Marília, não sei como ela não matou um!
Ligamos no celular do dr. Laerte, que já tinha chegado no hospital (isso porque ele mora do outro lado da cidade). Em pouco tempo, lá vem ele pelo corredor. Marília tentava resolver a parte burocrática, enquanto eu, na cadeira de rodas, sofria a cada contração, no corredor! Ele simplesmente foi empurrando minha cadeira direto pro Centro Obstétrico. Anunciou pelo interfone que estava entrando com uma paciente e lá fomos nós! Troquei de roupa e fui pro pré-parto. Enquanto isso, Marília, presa lá embaixo com a papelada, mandou ver um ansiolítico, com medo de perder o parto.
Enquanto minhas contrações aumentavam, a dilatação não aumentava junto. As contrações já estavam de minuto em minuto, e a dor era tanta que eu vomitava o tempo todo. Aí chegou o momento fatal em que o dr. Laerte anunciou que ia me operar. A dilatação estava demorando muito e o bebê ia entrar em sofrimento. Confesso que concordei na mesma hora! Na verdade eu já tinha pedido anestesia, mas como a dilatação não progredia eu não podia tomar, senão ia atrapalhar tudo. Segurando minha mão o tempo todo, ele começou a acionar a equipe. Quando o anestesista se apresentou eu soltei um "meu herói"!! Marília já estava na sala, toda paramentada, só com os olhos de fora, arregalados!
Fomos pra sala de cirurgia, e o anestesista não conseguia colocar a agulha no lugar certo: "Você tem algum desvio de coluna?" "Vários!", e lá vinha uma contração. No meio de uma delas o dr. Laerte me segura firme pelos ombros e diz que eu não podia me mexer, pois o anestesista estava colocando a agulha. Caraca! Alguns minutos depois, ahhhh, que maravilha, adeus, dor! Eu continuava passando mal, mas agora podia até falar. Em questão de minutos, o choro forte do Samuel invadiu a sala! Eram 22h45. O pediatra me mostrou ele rapidamente e saiu depressa, com a Marília atrás, para os procedimentos com o bebê. Algum tempo depois, lá vêm eles de volta, e finalmente pude conhecer meu filho. Nada, nada, nada se compara com esse momento.
Daí em diante, foi só alegria. A primeira mamada, o primeiro banho, a ida pra casa... O resto da história vocês já conhecem!




